Menu

PONTO DIGITAL MIRADA

[Crítica] Dom da liberdade

Cia do Tijolo de São Paulo encena Avesso do Claustro para celebrar a trajetória do Arcebispo Emérito de Olinda e Recife, Dom Helder Camara e traçar conexões com os dias atuais

Por Ivana Moura

avesso

Bateu um infrequente medo de avião. Mas avistei um homem-santo que apanhava a mesma aeronave e respirei aliviada. Não vai ser desta vez que esse aparelho voador vai cair, pensei no íntimo. Isso foi no início dos anos 1990, numa das minhas primeiras viagens ao Festival de Teatro de Curitiba, saindo do Recife. Dom Helder Camara (1909-1999) dissipou o receio incomum que se apossou de mim. Sua presença naquele ambiente devolveu-me uma paz temporária, mas profunda. E olhe que, sinceramente, eu nem era fã fervorosa do Arcebispo Emérito de Olinda e Recife.

Essa passagem emergiu dos sótãos da memória durante a apresentação do espetáculo O Avesso do Claustro, da Cia do Tijolo de São Paulo, durante o Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos. A encenação incendiou-me de sentimentos nobres. Parecia que boiava em águas mornas, meu coração quente, meus olhos molhados e uma certeza que alguns homens são realmente imprescindíveis para a humanidade, seu transcurso pela Terra deixam marcas de amor… São poucos. Dom Helder Camara é um deles.

Nesses tempos tão obscuros e obtusos parece da maior importância ampliar na escala cênica a trajetória desse bispo mignon na estatura física e gigante em coragem e devoção aos homens. Um santo rebelde como se pauta o grupo para construção dessa narrativa repleta de epifanias.

O espetáculo é quase perfeito em seu organismo de compartilhamentos de afetos e desejos de dias melhores, de tempos melhores. De comunhão com sopa, vinho e guizos. Repleta de ânimos, a encenação traça paralelos da luta do Dom Helder durante o regime militar brasileiro e essa outra Idade Média que encaramos sem tantos eixos de sustentação.

Esse bispo vermelho tinha um jeito muito peculiar de resistir. De criar aliados, de defender os mais pobres. De gritar por justiça, democracia e direitos humanos pelo mundo afora sem levantar a voz. De desafiar autoridades religiosas e profanas.

A abertura do espetáculo é puro deslumbramento. E isso vai se multiplicando ao longo de mais de duas horas de apresentação. Mas esse começo já agarra pela emoção. Com uma fina cortina, que separa palco e plateia, ainda fechada, atores-cantores e os músicos dirigidos por William Guedes, com imensas saias e bustos nus, em pé sobre pequenos bancos tocam e cantam a versão de câmara da arrepiante Missa Luba –– baseada em canções tradicionais do Congo.

Essa Missa Luba foi empregada por Pier Paolo Pasolini em O Evangelho Segundo Mateus. Trechos do filme são projetados no cenário, em outro momento, como comentários do religioso sobre as figuras bíblicas e o desempenho dos atores.

Músicas litúrgicas em ritmo de maracatu fazem parte da trilha sonora original de Caique Botkay e Jonathan Silva, que são entoadas com alegria. Essa sonoridade faz trânsitos entre cenas, preenche espaços, cria climas, subverte intenções. É uma personagem estratégica na montagem.

Fé e resistência política

Na primeira fala do personagem Dom Helder da peça ele argumenta: “Afirmo para os senhores que ainda hoje, nas periferias do Brasil, Cristo se chama Zé Antônio, Amarildos, Claudias, Beneditas, Lampiões e Josés”. Pessoas que sofreram algum tipo de abuso de autoridade e agressão policial; desaparecidas, mortas ou que foram vítimas de violência. Isso já traduz a temperatura do espetáculo. Seu teor político toma posição a favor da justiça, da liberdade, da igualdade, da fraternidade, da repartição das riquezas, da luta contra qualquer barbárie, como ocorreu com seu personagem principal.

O teatro para a Cia do Tijolo assume papel engajado com seu tempo, com as causas urgentes. O Dom Helder do grupo se ergue contra os fundamentalismos disfarçados e ou desavergonhadamente ostentados por igrejas mercenárias. Se opõe às funções retrógradas da chamada BBB, a bancada da Bíblia, do Boi e da Bala. Combate a manipulação de alguns segmentos que exploram Deus. E isso é brilhantemente apresentado no discurso levado ao palco, que elenca os adesivos de carro que sustentam em seus dizeres “Presente de Deus”. À vergonhosa sessão no Congresso em que o nome de Deus foi citado para justificar sentimentos e atos mais torpes.

O religioso é interpretado de forma visceral por Dinho Lima Flor, que divide a direção com Rodrigo Mercadante. Frei Betto assina a orientação teórica do espetáculo. Os motes temporais são habilmente entrelaçados. Frente a esse personagem biográfico são colocadas três figuras fictícias, que ouvem seus poemas e histórias, dialogam com ele, e questionam as escolhas do protagonista. Suas perguntas norteiam as ações. Um pesquisador à procura de Dom Helder no Recife; uma mulher que amarga um duro cotidiano em São Paulo e uma cozinheira do Rio de Janeiro, que vive aos pés do Cristo Redentor.

Rodrigo Mercadante faz o jornalista que, na visita ao Recife. Lilian de Lima atua como a moradora que nas caminhadas noturnas reflete sobre a exclusão. Karen Menatti faz o papel da mestre-cuca habitante da Cruzada São Sebastião, no Rio e interroga a existência de Deus. Flávio Barollo circula pelo palco a projetar imagens em lugares surpreendentes. Os músicos Aloísio Oliver, Maurício Damasceno, Leandro Goulart e William Guedes, completam o elenco,

Transbordamento

O excesso narrativo da dramaturgia coletiva transborda ao buscar dar conta dessa vida tão rica e da relevância das conexões com o mundo atual. Em 170 minutos, a montagem avança como missa profana, com passos de calvário e paradas nas estações de trem. Até chegar ao apoteótico fechamento de Carnaval, que congrega bonecos gigantes de Dom Helder, Paulo Freire, Garcia Lorca e Patativa do Assaré, personalidades que estão no repertório de peças da Cia. do Tijolo: Ledores no Breu, Cantata para um Bastidor de Utopias e Concerto de Ispinho e Fulô.

A vida de Câmara é exposta de forma não linear.  Seus trejeitos dramáticos são incorporados por Dinho. Suas mudanças de opções traduzem a carne viva.  “Em cada um de nós dorme um fascista e às vezes ele nunca desperta. Às vezes, porém, ele desperta sim.” Na juventude Dom Helder foi um entusiasta do movimento integralista, os camisas-verdes do fascismo brasileiro organizado. Esse grupo enganou muito jovens com um discurso dúbio que o religioso soube enxergar mais tarde, quando se tornou-se um socialista e ganhou a alcunha de “bispo vermelho”.

Apesar do dilúvio de informações e detalhes sobre a existência do clérigo, há muito mais para ser explorado sobre esse poeta da fé, que meditava com a lógica da poesia e gostava de promover reuniões com artistas, saraus e debates abertos em pleno vigor da Ditadura. É que em 90 anos de vida ele foi extremamente ativo nos campos político, artístico e espiritual. Ele concebeu um banco para emprestar dinheiro aos pobres nos anos 1960, por exemplo. E organizou a construção de apartamentos para favelados no bairro carioca do Leblon, transformada numa cena muito potente do espetáculo.

Os relatos se seguem em cenas fortes que embaralham narrativas. Como o encontro de Dom Helder e um Papa e a crítica do Arcebispo de Olinda e Recife à opulência do papado. O assassinato do Padre Henrique como recado e condenação ao próprio Camara. A tortura de Frei Tito, que desencadeou à projeção sem trégua do seu algoz até a morte. Ou o da prostituta que perguntou ao Dom se era pecado se oferecer em sacrifício a um prisioneiro todos os anos da Sexta Santa e obteve como resposta que não era pecado.

Chama incandescente

Aquela criatura franzina amedrontava os donos do poder. Sua relação com a imprensa é explorada de forma espirituosa em várias estações: do vislumbrar do encontro com São Pedro, em que Dom Helder aguarda a imprensa, ou seu pedido para que a imprensa não esteja presente no encontro com João Goulart, quando o bispo previne sobre o golpe, e o vazamento de uma foto que se torna o estopim para prendê-lo.

Figura embaraçosa aos militares durante a ditadura, o espetáculo recupera os discursos do sacerdote que denunciou as torturas praticadas por militares brasileiros para mais de dez mil pessoas na França. Isso desencadeou a proibição de seu nome – de forma positiva ou negativa – pela Ditadura Civil-Militar por qualquer meio de comunicação por quase dez anos.

Dom Helder foi uma figura fascinante. Um crítico ferrenho da própria Igreja. Uma chama incandescente de tão humana. De uma coragem inabalável, que faz falta nesses tempos tão covardes. Uma pimenta vermelha a chamar para a briga. Uma luz de esperança para pensar o amor, o país e a vida.


Ivana Moura é jornalista, crítica cultural, pesquisadora de teatro, atriz e dramaturga. Mestra em Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Desde 2011 edita e produz conteúdo para o blog Satisfeita, Yolanda? (www.satisfeitayolanda.com.br), do qual é uma das idealizadoras. Participou de coberturas de festivais e mostras como a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo – MITsp (2014, 2015 e 2016), a Mostra Latino Americana de Teatro de Grupo (2015), Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília (2014 e 2015) e  Bienal Internacional de Teatro da USP (2015). Integra a DocumentaCena – Plataforma de Crítica e a Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT-IACT, filiada à Unesco.

*Leia mais sobre o Mirada 2016 aqui.