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PONTO DIGITAL MIRADA

[Crítica] Da lama ao caos

Carioca Aquela Cia. de Teatro revisita Manguebeat e Josué de Castro para tratar de história, desejo e impossibilidades

Por Pollyanna Diniz, do Satisfeita, Yolanda?

caranguejo-overdrive

No mangue não se paga casa, come-se caranguejo e anda-se quase nu. O mangue é um paraíso. Sem o cor-de-rosa e o azul do paraíso celeste, mas com as cores negras da lama, paraíso dos caranguejos. (O ciclo do caranguejo, Josué de Castro)

Caranguejo Overdrive, espetáculo da carioca Aquela Cia. de Teatro, é fruto da potência da reverberação até os dias de hoje das ideias do Manguebeat, surgido na capital pernambucana, Nordeste do Brasil, na década de 1990. No movimento que teve como propulsores nomes como Chico Science, Nação Zumbi, Fred Zero Quatro e Renato L, a música assumiu caráter político, de manifestação e denúncia social. As letras estavam cheias de referência ao Recife; em 1991, segundo uma pesquisa do Instituto de Washington, a quarta pior cidade do mundo para se viver. “É só uma cabeça equilibrada em cima do corpo / Escutando o som das vitrolas que vem dos mocambos / Entulhados à beira do Capibaribe / Na quarta pior cidade do mundo”, dizia Antene-se, de Chico Science.

O manifesto Caranguejos com cérebro, que saiu no encarte do icônico disco Da lama ao caos, de Chico Science e Nação Zumbi, cobrava a conta de uma ideia de progresso calcada no crescimento desenfreado: “A planície costeira onde a cidade do Recife foi fundada é cortada por seis rios. Após a expulsão dos holandeses, no século XVII, a (ex)cidade “maurícia” passou desordenadamente às custas do aterramento indiscriminado e da destruição de seus manguezais. Em contrapartida, o desvairio irresistível de uma cínica noção de “progresso”, que elevou a cidade ao posto de “metrópole” do Nordeste, não tardou a revelar sua fragilidade”.

A obra de Josué de Castro, autor de Geografia da fome, que serviu como inspiração para o Manguebeat (“Ô Josué, eu nunca vi tamanha desgraça / Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça”, trecho de Da Lama ao Caos), também foi referencial para Pedro Kosovski, dramaturgo do espetáculo Caranguejo Overdrive. Cosme, um caranguejo que um dia foi homem, resgata em sua essência/trajetória as ideias do pernambucano.

Logo no início do espetáculo, o personagem nos transporta ao mesmo universo de que fala Josué de Castro em O ciclo do caranguejo: “Os mangues do Capibaribe são o paraíso do caranguejo. Se a terra foi feita pro homem, com tudo para bem servi-lo, também o mangue foi feito especialmente pro caranguejo. Tudo aí, é, foi ou está para ser caranguejo, inclusive o homem e a lama que vive nela”, escreveu Castro. Da boca de Cosme, ouvimos: “(…) há uma importante diferença entre mim e os homens, pois eu não morro de fome como eles, eu me farto com os restos que um dia foram eu, enquanto eles morrem de fome, pois não há caranguejos para tantos homens”.

O Manguebeat e Josué de Castro propiciam o arcabouço teórico e estético para que a Aquela Cia. de Teatro discuta a sua própria aldeia, o Rio de Janeiro; e, através dela, de alguma forma todas as grandes cidades do país. A metáfora da antena parabólica enterrada na lama continua fazendo sentido. No enredo, Cosme é um catador de caranguejo do Mangal de São Diogo, atual Cidade Nova, no Rio de Janeiro. Obrigado a servir ao exército brasileiro na Guerra do Paraguai (1864-1870), Cosme presencia todas as atrocidades de uma guerra que não lhe dizia respeito, incluindo as mortes, as pestes (como a cólera) e a tortura dos próprios aliados do governo brasileiro.

Ao voltar para o Rio de Janeiro, com o corpo e o psicológico afetados, o personagem não encontra mais o seu lugar de origem. No local, uma grande obra para aterrar o mangue e construir um canal ligando a zona portuária ao Centro do Rio de Janeiro. O texto é direto ao perguntar quem ganhou a concessão para as obras. Mas esse movimento dramatúrgico que se reflete na identificação direta que o público traça com os dias atuais, avança ainda mais quando uma puta paraguaia, interpretada pela atriz Carolina Virgüez, dispõe-se a ser guia turística de Cosme. Além de apresentar os motivos das mudanças na paisagem natural a Cosme, a puta paraguaia é a responsável por ministrar uma hilária aula de história do Brasil, desde os tempos de Getúlio Vargas até o impeachment. A atuação de Carolina Virgüez, aliás, em todas as suas personagens, é um dos pontos altos da montagem; enquanto os demais trazem uma realidade mais crua e dura, Carolina carrega o tom de ironia e humor na peça com muita perspicácia e talento.

Nesse percurso de volta ao mangue, ao estado de caranguejo, há espaço ainda para tratar da precarização do trabalho nos canteiros da construção civil. Cosme aceita cavar buracos em troca de um prato de comida. Vira escravo do sistema; afinal, não há mesmo caranguejos para aplacar a fome de tantos homens.

Além do texto, que extrapola temporalidades, indo da Guerra do Paraguai aos processos políticos mais recentes, as demais escolhas da direção de Marco André Nunes, com relação às atuações, cenografia e música, fazem de Caranguejo Overdrive uma obra potente em suas possibilidades político e estéticas. A começar pelos próprios corpos dos atores, principalmente a serviço desse imbricado duplo homem-caranguejo. O personagem principal perpassa todos os atores homens da montagem – Alex Nader, Eduardo Speroni, Fellipe Marques, Matheus Macena e Samuel Vieira, mas com registros de corpo e voz distintos. Impressiona o personagem homem-caranguejo de Matheus Macena, com fala entrecortada e gestos do animal. Ou a transformação de Fellipe Marques em caranguejo – por cerca de 20 minutos, o ator fica na posição de caranguejo.

Em se tratando de uma peça que tem suas raízes no Manguebeat, a música não poderia estar em segundo plano. Uma banda ao vivo, formada por Felipe Storino, Maurício Chiari e Samuel Vieira trazem a batida pesada, que nos lembra o som do próprio Chico Science e da Nação Zumbi. Na cenografia, uma caixa de areia iluminada por seis luminárias, uma gaiola, um aquário, um quadro branco. Poucos elementos de cena, reforçando a crueza temática.

Caranguejo Overdrive revisita as ideias do Manguebeat, mas não fica presa às suas fronteiras, incorporando outras camadas de leitura. A Aquela Cia. de Teatro está tratando dos nossos desejos políticos e afetivos, de identidade, de ocupação do espaço público, de projeto de cidade, de política. E, nesse emaranhado, da lama que nos paralisa, das nossas impossibilidades levadas à exaustação, da consciência de um percurso.

É uma montagem necessária ao Brasil, principalmente neste momento específico; mas imprescindível (assim como O avesso do claustro, da Cia do Tijolo, que conta a história de Dom Helder Câmara) ao Recife. A peça traça um percurso de resistência, assim como a cidade onde uma avenida cortando o mangue, a Via Mangue, demorou mais de dez anos para ficar pronta, custando a cifra de R$ 500 milhões. No bairro do Pina, por trás do shopping mais rico do Recife, da janela do carro seguindo por essa via, avistamos o pôr-do-sol e as palafitas erguidas sobre o rio, habitadas por homens-caranguejo.

Nas sessões do Mirada, por conta de uma lei municipal, os caranguejos vivos que são utilizados em cena tiveram que ser substituídos por pedras. Provavelmente, uma diferença significativa à encenação; por outro lado, que possamos traçar metáforas. Afinal, andar para frente não é sinônimo de progresso. “(…) andar para frente é necessariamente andar para trás, recomeçar onde o fim não se precipita”, diz Cosme. A grande questão talvez esteja na paralisia, na luta diária para não nos tornamos pedra.


*Pollyanna Diniz é jornalista, crítica e pesquisadora de teatro. Mestranda em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo (USP), há cinco anos edita e produz conteúdo para o blog Satisfeita, Yolanda?, do qual é uma das idealizadoras. Participou de coberturas de festivais e mostras como a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (2014, 2015 e 2016), a Mostra Latino Americana de Teatro de Grupo (2015) e a Bienal Internacional de Teatro da USP (2015). Integra a DocumentaCena – Plataforma de Crítica e a Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT-IACT, filiada à Unesco.

*Leia mais sobre o Mirada 2016 aqui.