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PONTO DIGITAL MIRADA

[Crítica] Quebra de pactos no país dos Eulálios

Espetáculo Leite derramado, versão cênica do romance de Chico Buarque, convoca a memória delirante do protagonista centenário para falar do Brasil de hoje

Por Ivana Moura, do Blog Satisfeita, Yolanda

O som de Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, ocupa a cena propondo emoções contraditórias: de um ufanismo arraigado e de um profundo desprezo por tudo que está instalado no país. A cada verso as camadas de pele são arrancadas à força, numa ação brutal de descolar carnes da formação brasileira; dando um jeito de contrabandear parentescos e fazer sumir irmandades. Essa afecção de identidades como linguagem só me alcançou ao final da sessão da estreia nacional do espetáculo Leite derramado, versão cênica do romance de Chico Buarque de Hollanda (publicado em 2009), adaptado e dirigido por Roberto Alvim. O lançamento ocorreu na quinta-feira, 15 de setembro, no MIRADA, Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, em São Paulo.

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Eulálio d’Assumpção é um velho decrépito, que ostenta no corpo, na voz e nos gestos ressonâncias do antepassado aristocrata e da decadência dos descendentes – avô latifundiário escravagista e político do Império; pai senador corrupto e suspeito comerciante de armas da República; neto guerrilheiro comunista; bisneto negro e garoto de programa; tataraneto traficante e branco de olhos azuis.

O oligarca centenário falido enverga o ocaso de sua linhagem de filhos únicos, o fim da fileira de excessos, ele mesmo derramado no corredor de um leito de hospital público.

Antes mesmo do protagonista soltar o verbo do alto do pedestal de quem sempre fez parte da elite, o espetáculo de Alvim faz uma síntese dos últimos séculos do Brasil numa pantomima ao som de Ary Barroso. Depois, a trilha sonora assinada pelo filósofo Vladimir Safatle segue a reger a partida que transborda e esvazia, de uma ficção que se alimenta da realidade.

Desmoronam as fronteiras do mundo interno do personagem – com a memória de seu clã, suas crenças e posições políticas de superioridade, imaginação fértil – e o externo, o coletivo.

Nas dobras das palavras, manobras. As mesmas frases assumem funções tão diversas para defender, atacar e conciliar. Que potente projeção de situações corriqueiras e esdrúxulas são pescadas do cotidiano vulgar e esfregadas na cara do público, mas que no palco arma-se de poética.

Esse personagem gagá é defendido de forma brilhante pela atriz Juliana Galdino, que sussurra e grita as frases desse Eulálio que usa morfina para ficar de pé, internado em algum bairro do Rio de Janeiro. Em falas que vão do coloquial ao empolado. Intérprete que voa com a prepotente figura ao maltratar enfermeiras e médicos plantonistas, como sempre fez com seus empregados; que realinha seu discurso para construir uma narrativa que o conforte ou aplaque seus instintos. Galdino, mais uma vez para ser aplaudida de pé.

O elenco afinado, que constrói cenas de beleza impactante é formado por Helena Ignez, Renato Forner, Taynã Marquezone, Caio Rocha, Leandro Grance e Diego Machado.

 

Intérpretes do Brasil

Poderosíssimas imagens são erguidas como quadros ferozes da trajetória do país em bancarrota.  E desses mapas são convocados os grandes intérpretes do Brasil: Gilberto Freyre, de Casa Grande & Senzala; Caio Prado Jr., de Formação do Brasil Contemporâneo e o pai de Chico Buarque, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, de Raízes do Brasil. Mas o diretor intima outras composições distorcidas pelos donos das vozes das comunicações, numa polifonia de discursos recalcados.

As alegorias chegam em quadros compostos na cena ou sugeridos para a imaginação do espectador a partir do comando do protagonista. Como o das meninas que acocorados feitos sapos tentavam pegar as moedas jogadas por Eulálio. Ou dos encontros de negócios com contrabandistas.

Grita o racismo da elite escravocrata brasileira, marcada pela promiscuidade com suas vítimas. As cenas possantes investem na escala ampliada da posição dos quatrocentões da casa grande, com suas empregadinhas a empurrar carinhos de bebê, em manifestações públicas por uma pseudo honradez, dignidade e decoro.

Em falas embaralhadas, o protagonista destrincha sua árvore genealógica, exaltando sua juventude de macho ou exorta fragilidades do seu amor e casamento com Matilde, a sétima filha da família de um político, que ostenta “cheiro de corpo”.

O velho decrépito, o ancião que praticou muitas barbáries, está nas últimas, mas essa situação atual não faz dele melhor em nada. Como os vilões da história da humanidade, ele tem que ser encarado pelo conjunto da obra, por seus feitos. Eulálio se torna metáfora de um país que aloja em suas páginas a Velha República, a Quebra da Bolsa de 1929, o Governo Vargas, a Ditadura Militar, e agora a justiça que segue a punir “sem prova, com convicção”

As dúvidas e suspenses da cena desse Leite derramado, labirinto que Alvim ergueu em fluxos de memórias e devaneios, tem na espectralidade de luz baixa (mas nem tanto quanto em outros trabalhos) a trama de um exército fantasmagórico em zonas crepusculares.

Caixa de Pandora da realidade brasileira. O jogo não é fácil. A plasticidade desses corpos em movimento clareia a escuridão, com cores e discurso coreográfico. O tempo é explodido com auxílio da música de Safatle. A narrativa segue sinuosa, delirante. Um espetáculo visceral, para falar do Brasil de hoje, sem concessões.

Registros da estreia

A montagem Leite Derramado foi atingida por problemas técnicos de iluminação na noite de estreia no Teatro do Sesc Santos, em 15 de setembro de 2016. A apresentação atrasou em uma hora. Enquanto os espectadores aguardavam buliçosos no saguão, a equipe tentava resolver a afinação da luz. Logo esse elemento que e tão caro à Cia. Club Noir, de Roberto Alvim e Juliana Galdino.

Elenco tenso, plateia cansada pela espera. Detalhes que podem interferir na recepção. O elenco chorou ao final da apresentação. O público aplaudiu com entusiasmo.

Nem sempre os deuses do teatro permitem que as coisas saiam de acordo com o que os artistas planejam. Mas, eles, os deuses, reconhecem os seus.

 

Ivana Moura é jornalista, crítica cultural, pesquisadora de teatro, atriz e dramaturga. Mestra em Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Desde 2011 edita e produz conteúdo para o blog Satisfeita, Yolanda? (www.satisfeitayolanda.com.br), do qual é uma das idealizadoras. Participou de coberturas de festivais e mostras como a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo – MITsp (2014, 2015 e 2016), a Mostra Latino Americana de Teatro de Grupo (2015), Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília (2014 e 2015) e  Bienal Internacional de Teatro da USP (2015). Integra a DocumentaCena – Plataforma de Crítica e a Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT-IACT, filiada à Unesco.